Um recado para todos os adultos: fora da escola, não pode!
Após serem identificadas pela Busca Ativa Escolar em risco de evasão, três irmãs de Guarapari (ES) retomaram os estudos e hoje frequentam regularmente a escola
Em Guarapari (ES), a atuação integrada da Escola Maria Veloso Calmon, no bairro Camurugi, da Secretaria Municipal de Educação, do Conselho Tutelar e da rede de proteção contribuiu para que três irmãs, com idades entre seis e 12 anos, voltassem a frequentar regularmente a escola após um período de faltas consecutivas e risco de evasão.
O caso foi identificado por meio do monitoramento diário de frequência realizado pelas unidades de ensino. As irmãs Lorrhana Santos, 12 anos, e Izabella Santos, 11 anos, estavam matriculadas na rede municipal, mas apresentavam ausências frequentes, enquanto a mais nova, Alice Oliveira, de seis anos, ainda não havia iniciado a vida escolar. Após algumas tentativas de retorno, a escola registrou um alerta na plataforma da Busca Ativa Escolar (BAE), estratégia do UNICEF e parceiros para apoiar Estados e municípios a identificar crianças e adolescentes que estão fora da escola ou correm risco de abandono e tomar as medidas necessárias para garantir a matrícula e a permanência na escola, aprendendo.
Segundo Helaine de Sena, supervisora institucional da BAE no município, o alerta foi o ponto de partida para o acompanhamento mais próximo da família. “A escola já vinha tentando contato, e quando o alerta chegou para nós, descobrimos que a família tinha mudado de endereço. Conseguimos localizar a família, fizemos a visita e confirmamos que as meninas realmente não estavam frequentando a escola e que seria necessário um acompanhamento mais próximo”, explica.
Durante a visita domiciliar, a equipe identificou que a família enfrentava dificuldades que estavam interferindo na permanência das crianças na escola. A partir disso, o caso passou a ser acompanhado de forma conjunta pela Busca Ativa Escolar, pelo Conselho Tutelar e por outros serviços da rede de proteção do município.
De acordo com Débora Ferreira, conselheira tutelar que acompanhou o caso, todas as medidas de orientação e acompanhamento foram realizadas. “Quando encontramos uma situação que envolve risco para crianças, precisamos agir para garantir a proteção delas. Nesse caso, após algumas tentativas de orientação e acompanhamento junto à família, foi necessário encaminhar as meninas para o acolhimento institucional”, explica.
As meninas permaneceram em acolhimento entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano. Durante o período, que durou dois meses, passaram a receber acompanhamento de saúde, apoio psicossocial e retomaram a frequência escolar. Atualmente, já retornaram ao convívio familiar e são acompanhadas pela rede municipal.
Para Julia Bernardo, coordenadora da Busca Ativa no município, o resultado só foi possível graças ao trabalho conjunto entre diferentes áreas. “O trabalho intersetorial é fundamental, porque conseguimos olhar para cada estudante de forma completa. Cada criança que retorna para a escola não é apenas um número em um relatório, é um menino ou menina que volta a ter oportunidade, a ter sonhos e a ter um futuro. A Busca Ativa não é só trazer de volta para a escola, é viabilizar o direito de aprender”, afirma.
A volta à escola e a construção de novas rotinas
Para a mãe das meninas, Gleyse Oliveira, o retorno das filhas à escola trouxe mudanças importantes na rotina da família e no interesse das crianças pelos estudos.
“Elas [Julia, Débora e Helaine] foram lá em casa, conversaram comigo e me orientaram direitinho sobre a importância das meninas estarem na escola. Explicaram como funcionava, foram muito atenciosas. Hoje eu vejo que elas chegam da escola querendo fazer dever, gostam de estudar e estão mais animadas”, relata.
Segundo ela, a rotina das meninas mudou depois do retorno às aulas. “A Lorrahna gosta muito de matemática, fala que quer ser professora. A Alice gosta de história. A Izabella está mais comunicativa, está se soltando mais”, completa.
Na escola, o acompanhamento também é constante. A professora Karina da Silva Ferreira, que ensina na turma de Lorrahna, conta que a adaptação aconteceu aos poucos. “No começo ela era mais tímida, mas foi se integrando com a turma. As próprias colegas ajudaram muito nesse processo. Hoje ela participa das atividades, demonstra curiosidade e vontade de aprender. Esse acompanhamento ajuda muito na construção da confiança e da autoestima dela”, afirma.
A professora Jessey dos Santos, que acompanha Izabella, também percebe avanços no comportamento e na aprendizagem. “Ela chegou mais retraída, mas sempre demonstrou interesse. Com o tempo foi se enturmando. Ainda é tímida, mas hoje participa das atividades, gosta de matemática e cumpre as tarefas, não dá trabalho algum dentro de sala”, diz.
Já a professora Aline Machado, que acompanha Alice, destaca o entusiasmo da menina nas primeiras experiências escolares. “Alice é uma menina muito carinhosa, muito esperta, vem se desenvolvendo muito rápido na escrita e é uma criança que ajuda os colegas. Quando alguém tem dificuldade, ela está sempre disposta a ajudar”, conta.
Para as próprias meninas, voltar à escola significou retomar algo que fazia falta no dia a dia.
“Eu chorei quando voltei, porque estava com saudade dos meus amigos” - Lorrahna.
“Eu fico lembrando da escola e esperando o dia passar para vir estudar” - Izabella.
“Eu gosto de ler, escrever e olhar os livros” - Alice.
Para a equipe da Busca Ativa Escolar, histórias como essa mostram que o acompanhamento contínuo faz diferença. “A gente não trabalha só para trazer a criança ou o adolescente para a escola. A Busca [Ativa Escolar] é oferecer muito mais, ela garante o direito de estudar. O nosso papel é fazer com que esse direito aconteça na prática”, reforça Julia. Segundo ela, em Guarapari, o trabalho segue sendo fortalecido para que mais crianças e adolescentes permaneçam na escola e tenham condições de construir novas trajetórias.
Sobre a Busca Ativa Escolar
A Busca Ativa Escolar (BAE) é uma estratégia que tem o objetivo de apoiar os governos numa ação intersetorial de identificação, atendimento nos serviços públicos e (re)matrícula de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de evasão. Por meio da iniciativa, municípios e Estados têm dados concretos que possibilitam planejar, desenvolver e implementar políticas públicas que contribuam para a garantia de direitos de meninas e meninos.
A estratégia é composta por uma metodologia social e uma plataforma tecnológica disponibilizadas gratuitamente para estados e municípios. Ela foi desenvolvida pelo UNICEF e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com apoio do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).
A adesão à Busca Ativa Escolar (BAE) é gratuita e pode ser feita a qualquer momento por meio do site buscaativaescolar.org.br, que oferece apoio técnico, materiais formativos e uma plataforma digital para ajudar gestores públicos a enfrentar a exclusão escolar de forma estruturada e intersetorial.
Para a estratégia Busca Ativa Escolar (BAE) para educação infantil, o UNICEF Brasil conta com o apoio da Fundação Bracell. Para ações gerais de Educação, temos a parceria estratégica de TP, parceria da Fundação Itaú e o apoio de FTD Educação. Além disso, o UNICEF tem a XBRI Pneus como parceira estratégica para toda sua atuação no Brasil.
Foto: UNICEF/BRZ/Vitor Denaday
