Tefé/AM: Busca Ativa Escolar une educação, saúde e assistência social para driblar cheias, secas e evasão
Desde a adesão à estratégia em 2021, equipe municipal já capacitou supervisores/as em quase 100 escolas, ajudou a viabilizar novas creches e reduziu a evasão no ensino fundamental, em meio a secas históricas do rio e surtos de doenças; Foto de 2021, durante a pandemia, primeiro ano da BAE em Tefé
No coração da Amazônia, a quase 550 quilômetros de Manaus por via fluvial, o município de Tefé/AM transformou a Busca Ativa Escolar (BAE) em uma engrenagem que une as secretarias municipais de Educação, Saúde e Assistência Social para manter crianças e adolescentes na sala de aula, mesmo diante de desafios que vão de períodos severos de seca do rio a surtos de doenças infecciosas.
A cidade, que reúne mais de 70 mil habitantes e é polo econômico da região, aderiu à estratégia em 2021, ainda sob os efeitos da pandemia de covid-19. Mas foi só a partir de 2022 que a iniciativa ganhou corpo dentro da Secretaria Municipal de Educação (Semed).
“Em 2021 e 2022, o pessoal ainda estava tentando entender como funcionava [a estratégia]. Em 2025, o que ficou marcado foi o amadurecimento: todo mundo sabe que existe Busca Ativa [Escolar], para que ela serve e por que é importante como política de permanência na escola”, resume Elton Marques, coordenador operacional da BAE em Tefé desde 2022.
Soluções
A rede municipal de ensino oferta a educação infantil e o ensino fundamental em 96 escolas, sendo 20 na zona urbana e 76 na zona rural, distribuídas entre comunidades ribeirinhas e indígenas. Com unidades escolares que chegam a ter cerca de mil alunos, a equipe municipal da estratégia percebeu que deixar as ações de busca ativa apenas nas mãos de diretores/as e pedagogos/as, já sobrecarregados com a rotina escolar, não trazia o retorno esperado. A solução, adotada a partir de 2024 e aprofundada em 2025, foi indicar um/a supervisor/a institucional por turno em cada escola: profissionais que já atuavam nas unidades, mas passaram a ter a função de referência para a estratégia Busca Ativa Escolar, com capacitação oferecida pela própria Semed.
“Diretores, vocês estão muito ocupados, então indiquem uma pessoa de referência na escola [para realizar a Busca Ativa Escolar]. A gente vai prestar todo o treinamento, vamos dar formação”, relembra Marques. As escolas aderiram à proposta de imediato, segundo o coordenador operacional.
Para facilitar o trabalho de Busca Ativa Escolar em escolas sem acesso à internet, situação comum na zona rural e ribeirinha, a equipe municipal criou uma planilha off-line em Excel, inspirada na estrutura da plataforma da estratégia, além de fichas impressas de acompanhamento de frequência que os/as diretores/as preenchem à mão e entregam para a equipe municipal da BAE lançar no sistema.
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Secas históricas e surtos de doença
A geografia amazônica impõe desafios próprios. Em 2023, saindo da pandemia da covid-19, o município enfrentou o que a equipe descreve como a maior seca já registrada na região, que isolou comunidades inteiras e dificultou o envio de suprimentos pela Defesa Civil. Nesse cenário, as escolas se tornaram pontos de apoio para armazenar donativos, e os/as diretores/as – que atuam muitas vezes como lideranças locais – usaram grupos de WhatsApp com famílias e estudantes para manter o vínculo escolar, o que ajudou a evitar uma alta evasão.
“Graças a essa metodologia, graças aos diretores já terem conhecimento de como funcionava e da importância de realizar a busca ativa, muitas crianças não perderam o contato com a escola”, diz o coordenador operacional.
Em 2024, uma nova seca, desta vez de menor intensidade, repetiu o desafio, mas a equipe já sabia como agir. Já em 2025, sem seca severa, Tefé enfrentou um surto de mão-pé-boca, uma infecção viral altamente contagiosa causada pelo vírus Coxsackie que atinge principalmente crianças menores de 5 anos, provocando febre e lesões, de acordo com a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). Uma nota técnica da Secretaria de Saúde orientou o afastamento temporário dos/as alunos/as infectados, e o contato mantido pelas escolas via WhatsApp com as famílias garantiu o retorno da maioria das crianças, assim que recuperadas.
Elton Marques conta que o alto número de casos motivados por problemas de saúde registrados na plataforma da BAE reflete justamente esse cuidado: cada afastamento por doença é documentado e compartilhado com a equipe de saúde, fortalecendo o trabalho conjunto entre as secretarias. Segundo a plataforma da estratégia, no topo dos motivos para o afastamento escolar está “criança ou adolescente com doenças (que impedem e/ou dificultem a frequência à escola”, com 864 casos (29,32%).
A equipe municipal da BAE em Tefé/AM já cadastrou na plataforma 2.947 casos de crianças e adolescentes em risco ou em situação de abandono, evasão ou exclusão escolar, sendo que 2.098 (71,2%) foram concluídos e 676 (23%) estão em andamento dentro da escola. Menos de 6% dos casos se tratavam de transferência, em andamento/fora da escola e interrompido.
Outro motivo de afastamento escolar identificado pela equipe é a negligência familiar, que a rede de proteção — sobretudo o Conselho Tutelar — ajuda a enfrentar. Como Tefé é o município polo da região, também é comum matricular crianças que, pouco depois, mudam de endereço sem aviso e são localizadas já matriculadas em outra cidade. A produção agrícola familiar gera ainda um padrão de afastamento sazonal, especialmente em períodos de plantio e colheita. A equipe também lida com casos de gravidez na adolescência e, mais raramente, paternidade precoce entre adolescentes.

Visita porta a porta em busca de crianças e adolescentes fora da escola
Rede intersetorial
A BAE em Tefé se apoia em uma comissão já existente, ligada ao Selo UNICEF, que reúne diferentes secretarias em torno de pautas comuns à infância e adolescência. A rede municipal de educação conta com mais de 1.500 professores/as, enquanto a saúde contribui com mais de 500 agentes comunitários/as e a assistência social soma entre 10 e 15 profissionais de referência distribuídos em dois Centros de Referência de Assistência Social (Creas).
Adriel Ramos, supervisor institucional da BAE responsável por acompanhar as escolas e alimentar a plataforma, resume o papel da equipe diante de casos ligados a fatores de saúde, socioeconômicos ou de desinteresse pelos estudos: “A gente orienta a escola e busca todos os meios, como os nossos parceiros, para ajudar o aluno a voltar para a escola”, ressalta.
Para Marques, a metodologia da Busca Ativa Escolar, desenvolvida pelo UNICEF e a Undime, em parceria com o Congemas e o Conasems, foi decisiva para estruturar o trabalho no município.
“Sem essa reunião de profissionais, de instrução, de material, de assessoria, a gente não chegaria onde está hoje”, avalia Elton.
Um dos resultados mais concretos do trabalho, de acordo com Elton, foi o mapeamento populacional feito em parceria com agentes de saúde para embasar a abertura de novas creches. Usando dados do sistema e-SUS, a equipe identificou a demanda por vagas em regiões como a zona rural do município e bairros periféricos, o que ajudou a viabilizar a inauguração de três novas creches, com uma quarta unidade já prevista.
Nas comunidades indígenas da região, a equipe municipal da BAE tem uma articulação direta com escolas e lideranças locais, incluindo uma unidade indígena de tempo integral. Nessas comunidades, a evasão escolar é hoje praticamente nula, informa o coordenador operacional.
O município também mantém programa municipal de transferência de renda com contrapartida de frequência escolar, o Bolsa Tefé, direcionado a famílias em situação de vulnerabilidade social.
Fotos: Semed de Tefé



