Caminhos de volta à escola no Espírito Santo
Com o apoio da Busca Ativa Escolar, municípios como Nova Venécia e Marechal Floriano mobilizam a rede de proteção para identificar crianças e adolescentes fora da escola e garantir seu retorno às salas de aula
O Espírito Santo tem quase quatro milhões de habitantes. Entre eles, estão cerca de 722,5 mil meninas e meninos entre 4 e 17 anos — segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação 2025, idade em que estudar é um direito garantido por lei e também obrigatório.
Mesmo assim, nem todos conseguem chegar ou permanecer na escola. Em alguns casos, a distância é grande demais. Em outros, mudanças de endereço, dificuldades familiares ou a falta de acesso à creche e à educação infantil acabam dificultando ou interrompendo a trajetória escolar.
O Guia de Boas Práticas da Busca Ativa Escolar no Espírito Santo destaca que, em muitas regiões do estado, a própria dinâmica econômica também influencia a rotina das famílias. O Espírito Santo é um importante produtor de café, e períodos como o da colheita costumam mobilizar trabalhadores e provocar deslocamentos temporários, o que pode impactar a frequência escolar de crianças e adolescentes.
Para enfrentar essa realidade, municípios capixabas contam com o apoio da Busca Ativa Escolar, uma estratégia desenvolvida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). No Espírito Santo, a iniciativa é realizada em parceria com o Governo do Estado, com investimento e parceria estratégica da EDP, distribuidora de energia elétrica no estado, e apoio técnico do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC).
A estratégia busca identificar crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de abandono e mobilizar uma rede intersetorial de profissionais para apoiá-los no retorno às salas de aula. Os resultados mostram o avanço desse trabalho no estado. Entre 2017 e 2023, cerca de 348 meninas e meninos haviam sido rematriculados na plataforma. A partir de 2023, com o fortalecimento da iniciativa, 5.211 crianças e adolescentes voltaram para a escola no Espírito Santo, um crescimento de quase 1.500%.
Por trás desses números está o trabalho de uma rede formada por profissionais da educação, da assistência social, da saúde e de outras áreas. São eles que percorrem comunidades, conversam com famílias, identificam as razões que levaram cada criança ou adolescente a deixar a escola e buscam caminhos para garantir seu retorno e permanência nos estudos.
É esse esforço coletivo que ganha vida em municípios como Nova Venécia e Marechal Floriano, onde gestores públicos e equipes locais trabalham para garantir que cada menino e cada menina tenham a oportunidade de aprender e de construir novos caminhos para o futuro.
Planejamento que ajuda a manter crianças na escola
Em Nova Venécia, no norte do Espírito Santo, a Busca Ativa Escolar já faz parte da rotina do município há alguns anos. Nos últimos tempos, o trabalho ganhou novo impulso com a organização de um plano de ação que ajuda a orientar as equipes e definir prioridades.
Para Vanessa Cassaro, coordenadora operacional da estratégia no município, o planejamento ajuda a transformar a Busca Ativa Escolar em um trabalho contínuo de cuidado com cada estudante. "A estratégia Busca Ativa Escolar dentro do município de Nova Venécia, ela tem uma grande importância para retornar os alunos que estão fora da escola ou também aqueles que estão apresentando em infrequência. Então, de acordo com as orientações da estratégia pelo UNICEF e pelo CDJBC e todos os parceiros que nos auxiliam, a gente montou um plano de ação com metas específicas para que a gente pudesse alcançar essas crianças e adolescentes. Entre experiências, todas as quintas-feiras, a gente desenvolve o Dia D da Busca Ativa Escolar, quando vamos nas casas das famílias que chegam para nós por meio dos alertas, para entender quais são as dificuldades que essas crianças e adolescentes estão enfrentando para deixá-las fora da escola. E com isso, a gente aciona a nossa rede de cuidados dentro do comitê para retornar esses estudantes para a escola"., explica
A partir desse planejamento, profissionais da educação, da assistência social, da saúde e de outras áreas trabalham juntos para identificar crianças e adolescentes que estão fora da escola ou com muitas faltas, entender o que está acontecendo e buscar caminhos para garantir que eles continuem estudando.
“Não é só ver que o estudante está fora da escola e tentar colocá-lo de volta, mas definir quais são as estratégias para trazê-lo e para que toda a população conheça o trabalho da Busca Ativa Escolar”, explica.
Com o acompanhamento mais próximo da frequência dos estudantes, as equipes conseguem agir rapidamente quando surgem sinais de alerta, evitando que a infrequência se transforme em abandono escolar.
Assim, pouco a pouco, o trabalho da Busca Ativa Escolar vai ajudando a garantir que mais crianças e adolescentes permaneçam na escola.
Trabalho em rede fortalece o retorno à escola
Em Marechal Floriano, na região serrana do Espírito Santo, a Busca Ativa Escolar também se tornou uma ferramenta importante para acompanhar a trajetória de crianças e adolescentes e evitar que eles deixem a escola.
No município, a estratégia ganhou força com o uso da plataforma da Busca Ativa Escolar, que ajuda diferentes setores da gestão pública a trabalharem juntos no acompanhamento dos casos. Jomaira Ramos de Freitas Mariano, coordenadora operacional da estratégia no município, explica como a ferramenta ajuda a conectar o trabalho a várias áreas:
“O uso da plataforma é basal da nossa ação intersetorial no município, porque a Busca Ativa Escolar reverbera em outras estratégias e atividades desenvolvidas por diferentes profissionais. Existem muitos fatores que interferem na frequência escolar do estudante, e a educação sozinha não consegue resolver tudo”, explica.
Por meio da plataforma, profissionais da educação, da saúde e da assistência social conseguem registrar informações, acompanhar situações de infrequência e buscar soluções de forma conjunta.
Com o compartilhamento dessas informações entre os setores, o município consegue identificar rapidamente quando uma criança está fora da escola ou correndo risco de abandono e agir para garantir que ela volte a estudar.
A experiência mostra que, quando diferentes áreas trabalham juntas, fica mais fácil entender os desafios enfrentados por cada família e construir caminhos para que nenhuma criança ou adolescente fique fora da sala de aula.
Experiências como as de Nova Venécia e Marechal Floriano mostram que fortalecer a Busca Ativa Escolar passa, além de tudo, pelo trabalho conjunto entre diferentes áreas. Educação, Assistência Social, Saúde e outras políticas públicas atuam lado a lado para identificar situações de risco, acompanhar cada caso e construir caminhos para que crianças e adolescentes permaneçam na escola.
Esse trabalho também envolve a formação contínua das equipes, a construção de planos de ação e o acompanhamento atento das situações identificadas. Mais do que uma metodologia, a Busca Ativa Escolar se consolida como uma estratégia de garantia de direitos, capaz de reconhecer as diferentes vulnerabilidades que atravessam a vida de meninos e meninas.
Assim, ao reunir dados, mobilizar profissionais e aproximar as famílias da escola, a iniciativa ajuda a transformar histórias de afastamento em histórias de retorno e de novas oportunidades de aprendizagem.
Sobre a Busca Ativa Escolar
Desenvolvida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), a Busca Ativa Escolar (BAE) apoia estados e municípios na identificação, no registro, no acompanhamento e na rematrícula de crianças e adolescentes que estão fora da escola ou em risco de abandono.
Com metodologia intersetorial e tecnologia gratuita, a estratégia fortalece a atuação coordenada de diferentes áreas do poder público para garantir o direito à educação. Atualmente, mais de 2.700 municípios e 21 estados participam da iniciativa em todo o Brasil.
No Espírito Santo, a iniciativa é realizada em parceria com o Governo do Estado, com investimento e parceria estratégica da EDP, distribuidora de energia elétrica no estado, e apoio técnico do Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC). Para ações gerais de Educação, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de TP, parceria da Fundação Itaú e o apoio de FTD Educação. Além disso, temos o Grupo Profarma e XBRI Pneus como parceiros estratégicos para toda sua atuação no Brasil.
Foto: UNICEF/BRZ/Vitor Denaday - MR Produções
