Municípios sergipanos usam a Busca Ativa Escolar para resgatar trajetórias interrompidas de jovens e adultos

Por Comunicação

29.07.2026
Municípios sergipanos usam a Busca Ativa Escolar para resgatar trajetórias interrompidas de jovens e adultos

Em um país onde ainda há 8,4 milhões de jovens e adultos analfabetos, segundo o IBGE, os municípios de Simão Dias, Monte Alegre e Pedrinhas mostram que a BAE pode ser a chave para garantir o direito de aprender dos 15 aos 80 anos (Foto: Wanderley Pessoa/MEC)

A história da educação brasileira carrega uma marca profunda: para milhões de pessoas, a trajetória escolar foi interrompida pela necessidade de trabalhar, pela maternidade precoce ou pela falta de oportunidades na zona rural. Os dados do módulo Educação da PNAD Contínua (IBGE), divulgados em junho de 2026, mostram que o Brasil possui 8,4 milhões de pessoas (15 anos ou mais) que não sabem ler e escrever. Mais da metade desse público (4,8 milhões) vive na Região Nordeste e 58% dos analfabetos brasileiros são idosos (60 anos ou mais).

Entre os mais jovens, cerca de 7,7 milhões de brasileiros/as de 14 a 29 anos não completaram o Ensino Médio. O abandono dispara a partir dos 15 anos e atinge seus picos aos 16 anos (18,5%), 17 anos (20%) e 18 anos (17,6%). A necessidade de trabalhar é o principal motivo geral para a evasão (43%), chegando a afastar 54,2% dos homens. A falta de interesse aparece em seguida, afetando 25,6% dos jovens. Entre as mulheres, a saída da escola é fortemente marcada pela desigualdade de gênero: além do trabalho (26,2%), a gravidez (24,7%) e os afazeres domésticos e cuidados com familiares (8,6%) são grandes impeditivos.

Para apoiar as pessoas que tiveram suas trajetórias educacionais interrompidas, municípios do interior de Sergipe têm utilizado a estratégia Busca Ativa Escolar (BAE). É o caso de Monte Alegre, Simão Dias e Pedrinhas, onde a BAE têm sido aplicadas na Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Sabendo que o trabalho rural afasta a população da escola, a equipe de Simão Dias/SE, município adeso desde 2018, criou o projeto “EJA Campo: Saberes da Terra” a fim de mapear os índices de analfabetismo nos povoados. Com o apoio da equipe municipal da BAE e de agentes comunitários/as de saúde e profissionais do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), foram realizadas visitas domiciliares porta a porta em horários alternativos, driblando a incompatibilidade de horários imposta pelo trabalho na lavoura. 

“Entre as principais ações que realizamos está o mapeamento das comunidades rurais com maior demanda, nas quais ouvimos as pessoas e, também, através da articulação com os gestores, professores e lideranças comunitárias. Realizamos também a grande carreata da 

Busca Ativa Escolar. Essa carreata foi realizada na sede do município e também nos povoados”, conta Lúcia Maria Nascimento, coordenadora operacional da BAE em Simão Dias. 

A iniciativa resultou em 207 jovens e adultos da zona rural matriculados/as. Neste segundo semestre de 2026, a expectativa é que o EJA ganhe mais 100 novas matrículas. 

Engajamento e protagonismo

Em Monte Alegre/SE, adeso desde 2019, as equipes EJA e BAE no município uniram forças para desenvolver ações com o objetivo de fortalecer o vínculo dos estudantes com a escola, reduzir a evasão escolar e incentivar a permanência e a participação nas atividades pedagógicas. Visando o engajamento e protagonismo dos jovens e adultos, os/as alunos/as da EJA foram convidados para participar de eventos escolares, culturais e comunitários, explorando diferentes datas comemorativas do calendário escolar. 

Em maio de 2026, por exemplo, os estudantes da EJA participaram da V Feira de Ciências Monte-Alegrense. Os alunos apresentaram trabalhos científicos valorizando sua própria cultura, como "Costurando memórias: retalhos que unem gerações, histórias e afetos" e "Raízes do Brasil: ecoando a cultura". 

“Esses momentos contribuem para um desenvolvimento de aprendizagem, da convivência social e do sentimento de pertencimento ao ambiente escolar”, afirma  Fabiane dos Santos, coordenadora operacional municipal da BAE em Monte Alegre.

Na virada de 2025 para 2026, houve ainda ações de incentivo à rematrícula entre os/as alunos/as da EJA. Ao observar que a mobilização havia obtido um baixo número de matriculados/as, promoveram campanhas nas redes sociais e veículos de comunicação local, além de ações presenciais em pontos estratégicos da cidade. 

“Quando começou o ano letivo, ainda observamos que havia a necessidade de buscar mais esses alunos. Então realizamos, na feira livre de Monte Alegre de Sergipe, uma busca ativa escolar, onde os professores participaram e até alguns alunos que já estavam matriculados também participaram, incentivando os demais. A feira livre tem um grande número de pessoas da zona rural, de idosos e de pessoas em geral. Então isso foi um incentivo muito bom”, comenta Fabiane, lembrando que o município passou a ofertar uma bolsa de R$100 a esses/as alunos/as. “O número de alunos dobrou. No ano anterior, a gente tinha por volta de 100, 110 alunos, e este ano ultrapassa de 200 alunos a nossa matrícula”, comemora.

Pedrinhas

Já Pedrinhas/SE, adeso desde 2017, criou soluções focadas na logística e no acolhimento de quem passou a vida sem ou com pouco acesso à escola. Em 2026, o município desenvolveu o projeto “EJA Itinerante: a escola vai até você", por meio do qual foram realizados eventos em praças e espaços públicos a fim de atender a população e realizar matrículas no local.

“A escola sai das quatro paredes e, em uma praça pública, começa a realizar algumas ações que chamam a atenção daquela comunidade local. Por exemplo: oficinas de alfabetização, jogos e atividades educativas, apresentações culturais e musicais. [Também apresentamos] depoimento de alunos da EJA que retornaram aos estudos. Inclusive os próprios alunos, durante esses depoimentos, tentam convencer os amigos e as pessoas que estão naquele evento a voltar a estudar”, conta Mariozam dos Santos, coordenador operacional da BAE em Pedrinhas/SE.

Os/as agentes municipais percorrem os bairros e povoados e tentam encontrar crianças, adolescentes, jovens e adultos que estão fora da escola. Quando o público da EJA é localizado, o principal objetivo, além da matrícula, é identificar os motivos que os/as levaram a interromper os estudos.

“Em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, Educação e Assistência Social, nós tentamos, caso precise, resolver esses impedimentos. Caso não seja necessário, eles são convencidos a voltar para a escola e a Secretaria Municipal de Educação dá alguns incentivos. Dentre eles, temos kit de material escolar para que o aluno volte a estudar, fardamento e transporte escolar. Inclusive, temos até idosos de 70 anos ou mais que o transporte busca e deixa em casa. É um sonho que eles tinham de estudar, e com esse programa, consegue dar continuidade e fazer com que esse sonho seja realizado”, avalia Mariozam.

Pedrinhas tem ainda o programa Aluno Exemplar. Os/as matriculados/as ganham uma conta digital na qual o município deposita um valor mensal para que possam permanecer na escola. Para receber o benefício, é exigida uma frequência regular às aulas igual ou superior a 80% e o/a estudante deve cumprir a presença nas atividades complementares e pedagógicas definidas pela própria unidade de ensino.