Igarapé-Açu/PA: como a Busca Ativa Escolar transforma destinos
Com forte atuação intersetorial e a caminho da regulamentação por decreto, município paraense mapeia causas da evasão, resolve vulnerabilidades sociais e garante o direito à educação; na foto, equipe municipal da BAE nas ruas em busca de crianças e adolescentes fora da escola
No município de Igarapé-Açu, localizado a 117 quilômetros de Belém, no nordeste do Pará, o combate à exclusão escolar vai muito além de telefonemas ou trâmites administrativos. Trata-se de uma verdadeira pesquisa de campo e de um esforço social conjunto. Por meio da estratégia Busca Ativa Escolar (BAE), a cidade — que possui forte base econômica na agricultura familiar — tem reestruturado sua rede de proteção para garantir que nenhuma criança ou adolescente fique fora da sala de aula.
Apesar de o município ter readerido à BAE ainda em janeiro de 2025, o trabalho de reestruturação do programa no município só ganhou força no final de 2025, quando a nova equipe gestora assumiu as ações da estratégia e se deparou com desafios acumulados.
“Começamos fazendo os cursos e montando a equipe municipal e o Comitê Gestor. Em seguida, implementamos a campanha de volta às aulas, mirando naqueles alunos que por algum motivo estão em risco de evasão ou já evadiram, e posteriormente realizamos uma ação voltada para a EJA (Educação de Jovens e Adultos)”, conta Maria Luzia Silva, coordenadora operacional da BAE em Igarapé-Açu.
A grande virada de chave em Igarapé-Açu para o sucesso da Busca Ativa Escolar é a intersetorialidade, a atuação conjunta e coordenada entre diferentes secretarias do município. A equipe de Educação percebeu rapidamente que a exclusão escolar é apenas o sintoma de problemas estruturais mais profundos.
Um dos marcos desse trabalho em rede ocorreu quando a BAE recebeu da Secretaria de Assistência Social uma lista com 53 alunos cujas famílias tiveram o benefício do Bolsa Família suspenso devido à infrequência escolar. A partir desse cruzamento de dados, a equipe foi a campo e se deparou com realidades de altíssima vulnerabilidade social e econômica.
"Foi aí que a gente foi percebendo a importância da Busca Ativa. Ela está muito além de trazer o aluno para dentro da sala de aula, de o aluno ter uma frequência. Ela, de fato, é um trabalho social", destaca Maria Luzia. Durante as visitas, a equipe encontrou obstáculos severos, como famílias inteiras onde as crianças sequer possuíam certidão de nascimento.
“Essa situação nos mostra a importância da metodologia e da tecnologia da BAE. Conseguimos resolver casos de famílias em que o benefício era a única renda da família”, comenta a profissional da Educação.
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Equipe em formação sobre o Selo UNICEF, do qual a BAE é atividade obrigatória |
Organização
Para dar conta da demanda, o território foi organizado: as 54 escolas do município foram divididas em 15 polos, facilitando o mapeamento. Maria Luzia, que é socióloga e pesquisadora, explica que a equipe precisou atuar de forma investigativa para localizar esses estudantes, percorrendo da zona urbana às agrovilas rurais. "Eu digo assim: ' a gente é o FBI agora, tem que encontrar esses alunos onde quer que eles estejam'", brinca a coordenadora operacional.
Para fortalecer ainda mais essa rede, a equipe municipal da BAE tem se reunido com diretores de postos de saúde para implementar pontos focais nesses locais. Dessa forma, Educação, Assistência Social e Saúde trabalham como um tripé: se uma criança vai ao posto de saúde, mas não está matriculada, ou se o Bolsa Família é suspenso, a rede é acionada e a Busca Ativa entra em ação.
O objetivo não é apenas preencher vagas, mas transformar realidades geracionais. "A gente precisa, através desse programa, quebrar ciclos de analfabetismo. Cada família que a gente for, a gente tem que conscientizar os pais da importância de as crianças estudarem", enfatiza Maria Luzia, lembrando que muitos pais na zona rural são analfabetos, mas que esse ciclo não precisa se repetir com seus filhos.

De projeto a política pública
Para garantir que todo esse esforço coordenado não seja apenas uma ação pontual, Igarapé-Açu está dando passos fundamentais para a institucionalização da Busca Ativa Escolar. A fim de formalizar as parcerias intersetoriais, foi criado o Comitê Gestor da BAE no município. Esse grupo reúne representantes estratégicos de diversas áreas da gestão pública para debater, planejar e monitorar as ações de resgate e permanência escolar.
Além da criação do comitê, a estratégia ganhará força de lei. O município elaborou um decreto municipal para regulamentar o funcionamento da Busca Ativa Escolar na cidade. O documento, que já está formatado e encontra-se na fase final aguardando a assinatura do prefeito, é um marco histórico. Ele estabelece formalmente o fluxo de trabalho e as responsabilidades de cada secretaria (Educação, Saúde, Assistência Social, Conselho Tutelar, entre outros), garantindo que a BAE seja tratada não apenas como um projeto da gestão atual, mas como uma política pública de Estado permanente.
Fotos: Semed de Igarapé-Açu


