Crianças e adolescentes na rota do Super El Niño: como escolas devem se preparar para secas, enchentes e ondas de calor

Por Comunicação

22.07.2026 | Atualizado: 22.07.2026
Crianças e adolescentes na rota do Super El Niño: como escolas devem se preparar para secas, enchentes e ondas de calor

Diante do aumento de eventos climáticos extremos e dos alertas sobre um novo fenômeno do El Niño, gestores públicos e comunidades escolares devem buscar estratégias para proteger o direito à educação, enfrentar à evasão e adaptar a infraestrutura das redes de ensino

A intensificação das mudanças climáticas e o risco iminente de eventos extremos colocam em xeque a rotina escolar de milhões de brasileiros/as. Alertas do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) sinalizam o risco de um "Super El Niño", trazendo secas e queimadas prolongadas nas regiões Norte e Nordeste, pancadas de chuva intensas e enchentes no Sul, além de ondas de calor atípicas pelo país nos próximos 12 meses. Dados do UNICEF mostram que, em 2024, pelo menos 1,17 milhão de crianças e adolescentes no Brasil tiveram as atividades escolares interrompidas em decorrência de tragédias ambientais.

Quando um desastre causa o fechamento de uma escola ou impossibilita o deslocamento de estudantes, o prejuízo vai além da interrupção das aulas. A escola funciona como uma infraestrutura permanente de acolhimento e proteção social. Seu fechamento compromete a segurança alimentar, o acesso à saúde, a saúde mental e a proteção contra o trabalho infantil e violências domésticas.

Para que as redes de ensino mantenham sua função protetiva em momentos de emergência, especialistas ressaltam a relevância de planejar locais alternativos de acolhimento para evitar a paralisação do ano letivo. Durante a live "Educação socioambiental e mudanças climáticas", transmitida pelo Conviva Educação no dia 16 de julho de 2026, Ana Carolina Fonseca, Oficial de Educação e Proteção à Criança do UNICEF Brasil, ressaltou a importância de não transformar o ambiente escolar em abrigo provisório, permitindo que as atividades pedagógicas sejam retomadas rapidamente.

"É muito importante que a Educação esteja na mesa desses debates desde o início, justamente para que os municípios se preparem para ter opções de abrigamento, para que a escola não seja esse lugar. Isso porque quanto mais rápido a escola retomar a sua missão [...] mais rapidamente a gente retoma a proteção", disse Ana Carolina.

Para evitar que novos episódios aprofundem o abandono escolar e as desigualdades educacionais, recomendações do UNICEF, da Undime e de especialistas em direitos socioambientais apontam caminhos pragmáticos que envolvem ações de busca ativa de alunos/as, trabalho intersetorial e adaptação de leis e instalações escolares. As orientações foram retiradas do guia Busca Ativa Escolar em crises e emergências.

1. Busca Ativa Escolar: escudo contra o abandono em emergências

Um dos pilares para evitar que desastres climáticos resultem em evasão permanente é o fortalecimento e a reorientação da Busca Ativa Escolar..A legislação brasileira (como o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA) e a Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU estabelecem que a educação é um direito inalienável. Mesmo em cenários de calamidade pública, o compromisso do poder público com a escolarização deve ser mantido.

Sobre essa necessidade de resposta imediata para evitar o desligamento dos estudantes, Ana Carolina Fonseca reforça que a ação precisa ser contínua desde os primeiros momentos da crise: "quanto mais tempo crianças e adolescentes ficam afastados da escola [...] maiores as chances de não retornarem. Por isso a Busca Ativa Escolar precisa começar no minuto zero também. A gente não pode perder o contato com esses meninos e meninas e, logo que as aulas  voltarem, intensificar as ações de busca ativa para que voltem."

Segundo o guia Busca Ativa Escolar em crises e emergências, as redes de ensino podem adaptar suas rotinas organizando os papéis da comunidade escolar:

- Professores como agentes comunitários: Atuam na linha de frente identificando sinais de que o vínculo do(a) aluno(a) está sendo rompido, como infrequência nas aulas (presenciais ou remotas), não devolução de atividades ou ausência da família na busca por alimentos/cartões-alimentação. Emite-se, então, um alerta na plataforma da Busca Ativa Escolar.

- Equipe diretiva como técnicos verificadores: Coordenadores(as) e diretores(as) realizam abordagem das famílias (por telefone, aplicativos de mensagem ou visitas domiciliares com protocolos de segurança) para identificar os motivos do afastamento e providenciar os encaminhamentos necessários.

2. Ação intersetorial, acolhimento e saúde na comunidade escolar

O enfrentamento aos impactos do El Niño exige a integração das redes de Educação, Saúde e Assistência Social. Por meio dos Comitês Gestores Intersetoriais, a escola aciona equipamentos como o Centro de Referência de Assistência Social (Cras), o Creas, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e o Conselho Tutelar para atender demandas urgentes das famílias atingidas por secas ou enchentes.

Dentro do ambiente de ensino, as orientações de cuidado e preparação incluem:

- Acolhimento e escuta ativa: Espaços para que alunos(as) expressem dúvidas, medos e sentimentos sobre o contexto de crise vivenciado.

- Apoio à saúde mental dos adolescentes: Acompanhamento contínuo dos estudantes e promoção de ações transversais contra os impactos psicossociais provocados pela perda de moradia ou rotina.

- Infraestrutura de água, saneamento e conforto térmico: Diagnóstico e adequação de banheiros, garantia de água potável e ventilação/resfriamento dos ambientes para garantir condições sanitárias e amenizar o impacto de ondas de calor extremo.

- Proteção social: Formação de educadores(as) para que estejam atentos a relatos e indícios de violências, trabalho infantil ou vulnerabilidades acentuadas durante momentos de calamidade pública.

A confirmação de novos picos do El Niño exige respostas preventivas dos governos municipais, estaduais e federal. Proteger crianças e adolescentes no contexto do colapso climático pressupõe transformar as escolas em territórios resilientes, seguros e integrados às suas comunidades. Somente unindo adequação de infraestrutura, ações de busca ativa imediata, acolhimento psicossocial e normativas de adaptação climática será possível assegurar o direito prioritário à vida, à saúde e ao aprendizado.